quinta-feira, 18 de março de 2010

O Garoto que Ouvia Demais

Por David Kushner


Ele era um jovem cego, revoltado e sozinho. Até descobrir que possuía um dom assustador que o fazia se sentir poderoso e o colocaria na mira do FBI


Foto: CORTESIA DA FAMÍLIA WEIGMAN
O Garoto que Ouvia Demais
Cego de nascença, Matt Weigman surpreendeu sua mãe por conseguir distinguir luzes aos quatro anos de idade.Após ajudar o FBI a desmantelar uma gangue de passadores de trote profissionais, Weigman acabou preso pelos crimes telefônicos que ele próprio cometeu









Começou com uma ligação para o número de emergência. "Escuta aqui", ordenava a pessoa, com a voz frenética ao telefone. "Tenho duas pessoas de reféns! E você sabe o que acontece com reféns? Não é como nos filmes, tá entendendo?" "Ok", disse o telefonista. "O nome de uma delas é Danielle. E estou com o pai dela também", continuou a voz do outro lado da linha. "Estou fazendo isso porque o pai dela estuprou minha irmã." A voz, que se identificou como pertencente a John Defanno, disse que estava com Danielle (18 anos) e seu pai amarrados na casa deles, no subúrbio de Colorado Springs, Colorado. Ele havia surrado o mais velho com sua arma. "Está sangrando muito", avisou Defanno. "Tenho uma arma. Se algum policial entrar nesta casa armado, atiro neles. É melhor alguém mandar alguma ajuda, porque eu estou ficando louco aqui." O atendente tentou mantê-lo na linha, mas Defanno o interrompeu. "Não vou mais falar", disse. "Você tem o endereço. Se não me ajudarem agora, nos próximos cinco minutos, juro que atiro nessas pessoas." O telefone ficou mudo.

Policiais correram até a casa, prontos para um tiroteio com um suspeito homicida. Mas, quando chegaram, não encontraram ninguém armado, reféns ou sangue. Danielle e seu pai estavam bem e seguros em casa - sozinhos. Nunca haviam ouvido falar de John Defanno por uma simples razão: ele não existia. "John Defanno" era, na verdade, um adolescente de 15 anos chamado Matthew Weigman - um menino gordo, solitário e cego, que vivia com a mãe na vizinhança humilde de East Boston. Pessoalmente, Matt era um rapaz tímido e envergonhado, de cabeça raspada e que passava dias enfurnado no quarto, passando 20 horas por dia falando em linhas de chat telefônico gratuito. Ao telefone ele se tornava o "Pequeno Hacker", o mais talentoso dos membros de um bando de passadores de trotes conhecidos como "phreaks". Para castigar Danielle, que o tinha irritado no chat, Matt havia ligado para a emergência e se feito passar por um psicopata, adulterando sua identidade telefônica para parecer que a chamada vinha de dentro da casa dela. É um truque conhecido como "swatting" - mobilizar esquadrões da SWAT para se vingar de seus inimigos - que caras como Weigman já haviam usado para acionar mais de 200 batidas policiais em dúzias de cidades nos Estados Unidos.

"Quando eu era moleque, trote era só pedir uma pizza e dar o endereço do vizinho", conta Kevin Kolbye, um agente do FBI encarregado de investigar os casos. Como um vilão dos quadrinhos, transformado por um trágico acidente, Weigman descobriu ainda muito novo que sua audição aguçada lhe dava superpoderes ao telefone. Era capaz de imitar qualquer voz, memorizar números de telefone pelo som das teclas e decifrar o sistema de funcionamento do sistema telefônico pelas frequências e pelos cliques de uma chamada, o que ele chama de "canções". O conhecimento lhe permitiu "hackear" celulares, desativar linhas e até grampear telefones fixos. "Era uma sensação de poder enorme para um garoto", ele conta. "Se alguém dissesse algo ruim sobre mim, eu apertava um botão e me vingava." Mas, no fim, os que estavam próximos de Weigman temiam que o dom se tornasse o motivo de sua desgraça. "Matt nunca teve a intenção de se tornar quem se tornou", conta Jeff Daniels, ex-aplicador de trotes, que ficou amigo de Weigman em um chat. "Quando você é um garoto cego, gordo, careca, tem uma família ferrada e descobre que tem a habilidade de fazer algo que te faz sentir melhor, o que você espera que aconteça?"

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http://www.rollingstone.com.br/edicoes/36/textos/3875/

postagem por Gerson e Mariana

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