quinta-feira, 18 de março de 2010

Código Aberto

Interatividade da ciência e arte


Por Adriana Veloso

Pesquisadores que trabalham com eletrônica, informática e arte demonstram as possibilidades de como suportes digitais e analógicos podem interagir com os alguns sentidos; sons, cores/luzes, temperatura, movimento e tato, entre outros. Vanessa Santos, mestre em Comunicação Social na Universidade de Brasília na área da Imagem e Som, desenvolve pesquisa sobre arte interativa e produção multimídia com software livre. Atualmente, cursa a disciplina Ateliê de Arte Computacional Interativa na Pós-Graduação da Escola de Belas Artes da UFMG e nos conta um pouco sobre seu trabalho. Adriana Veloso – Em que consiste a instalação que está sendo construída?
Vanessa Santos – A proposta é criar uma luminária feita de fibras ópticas que exibe formas tridimensionais a partir interação entre imagens e sons em tempo real. As fibras ópticas conduzem os feiches de luz, portanto, se você coloca uma das extremidades dela sobre uma superfície que emana luz, a fibra vai conduzir essa luminosidade até a outra ponta. O resultado é que as imagens 3D projetadas pela luminária mudam de tamanho, forma e também rotacionam a partir dos sons emanados no ambiente em que a luminária se encontra. Se alguém fala, ou abre uma porta, ou bate palma, ou canta, ou assobia, interferências deste tipo, a imagem da luminária é alterada. Para captar, realizar a leitura dos sons e programar estes dados usamos um software livre de programação que se chama Pure Data.
AV -Qual é a importância do uso de suportes de código aberto?
V.S - Se estamos falando em interatividade, este conceito na minha opinião pressupõe, sobretudo em se tratando de arte eletrônica, que se tenha, não só a possibilidade de interagir com a obra e as estruturas programadas, mas essencialmente ser facultado o direito de entrar no código gerado. Na medida em que se tem acesso à maneira como aquela estrutura foi programada, passa a existir também a possibilidade de intervir e de recriar a obra. O uso de softwares e hardwares livres se fundamenta nesta premissa.
AV– Seria uma interatividade mais profunda então?
V.S- O termo interatividade tem sido usado nestes ambientes informáticos para definir certos tipos de interação mediadas pelo computador. Interações entre homem-máquina e homem-homem. Há, contudo, um tipo de participação de quem interage que está submetida apenas ao clicar botões ou acionar dispositivos. Autores como Arlindo Machado já definiram este tipo de relação como uma relação de reatividade, já que o espectador continua a ser passivo, uma vez que a ele não resta nada a não ser reagir aos estímulos a partir das respostas que a ele são permitidas.
AV - De que forma a interatividade influencia nas narrativas artísticas?
V.S - Em termos multimídia, hoje já estão popularizados os servidores de banco de dados. Como exemplo podemos citar os populares Youtube, Myspace, GoogleVideos, Flickr. O narrador contemporâneo passa a ser então qualquer cidadão comum, que registre e coloque o conteúdo de sua história em um destes servidores. A partir daí, surge um novo interesse que é o de remixar esta infinidade de conteúdos publicados na internet. As novas narrativas se dariam então por meio dessa leitura, ou seleção, ou edição do conteúdo disponível nestes sites. A interatividade, então, acontece na medida em que qualquer pessoa possa intervir nestes bancos de dados. Vivemos marcados pelo remix, não só da cultura, mas dos próprios meios de comunicação.
AV -Você acha que existe uma relação entre estas novas possibilidades com a autoria coletiva e outros tipos de licenciamento de obras artísticas?
V.S - O copyright é um grande empecilho para que isso aconteça, na medida em que priva estes direitos de recombinação. Licenças que flexibilizem os usos das obras de arte, como a própria licença Creative Commons, seguem nesta lógica de que é preciso liberar alguns usos para que seja possível as pessoas interagirem e recriarem novas narrativas.
AV - Como você enxerga a aproximação entre a ciência e a arte?
V.S – Historicamente, o conhecimento técnico-científico não está dissociado do campo das belas artes. Na arte há também a técnica, o saber fazer; e este conhecimento também é científico. Há ainda a dimensão sensível e estética, o estudo das relações sociais e interpessoais. Arte é ciência, e conhecimento científico não está relacionado somente com as ciências exatas, com a razão matemática. Na verdade, cada vez mais, há uma tentativa de estabelecer um diálogo entre estes dois campos, distintos mas cada vez mais complementares. Falo do campo da arte e o da tecnologia, o das ciências humanas e o das ciências exatas.

Fonte:http://www.novae.inf.br/site/modules.php?name=Conteudo&pid=1021

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